quarta-feira, setembro 19, 2007

Assim como são as coisas são as arquiteturas.

As pessoas que me conhecem há bastante tempo nunca imaginariam (acho) que eu me tornaria um funcionário público. Sempre detestei trabalhos rotineiros, sempre gostei de desafios, inventar coisas e observar como o mundo funciona. Por isso fiz arquitetura. Na verdade, na verdade mesmo, fiz arquitetura porque era o primeiro na ordem alfabética da ficha de inscrição do vestibular. Mas dizer que foi por vocação sempre desperta uma estranha emoção na escumália. Interessante isso.

Uma grande verdade é que a arquitetura caiu de pára-quedas na minha vida, e até o terceiro ano de faculdade tinha pouco ou nenhum interesse pela coisa. Mas uma professora - sempre tem um(a) - me fez despertar para o arquiteto que estava dentro de mim (não se atreva a fazer esta piada ridícula). E isso porque quando eu entrei na faculdade nem sabia o que um arquiteto fazia! Ouvi durante todo o curso meus colegas falando que desde crianças gostavam de desenhar plantas de casas, olhar projetos em revistas e jornais. Não sei necessariamente se isso significa alguma vocação, porque desde pequeno sempre gostei dos Transformers e nem por isso queria ser um robô gigante. Ah, quem eu estou tentando enganar? Claro que eu queria ser um robô gigante!

O fato é que aquilo me causava um mal-estar. Metade da minha turma de faculdade vinha da Escola Técnica Federal (atual CEFET), e a outra metade (menos um) já havia contemplado de alguma forma essa opção profissional; eu (o "menos um"), por outro lado, gostava de ler, de desenhar. Queria mesmo era ser escritor ou cartunista e glamurosamente viver sem um tostão. Enquanto todos exibiam suas vocações prematuras para o ramo, eu ficava disfarçando o desconforto com minhas famosas (nem sempre apreciadas) tiradas.

E é impressionante a idéia que se esconde atrás das "vocações", tão buscadas atualmente (principalmente pelos jovens em idade pré-vestibular). Implica em um tipo de predestinação divina, segundo a qual todos nascem com um destino "sugerido" por Deus. Eu acredito que todos têm facilidade para algumas coisas e outras não, isso é óbvio, mas será que nascemos com isso ou aprendemos na infância? Voto na segunda hipótese, mas infelizmente vou deixar a argumentação para outra ocasião.

Minha lição para você, vestibulando, é não se estressar com esse papo de vocação. Hoje sou um arquiteto satisfeito com a carreira, e que sente falta de não dedicar mais tempo à ela devido ao meu emprego público de meio expediente. Nem por isso, porém, deixo de sentir falta também de desenhar, ler e escrever, razão pela qual vocês me encontram sempre, de vez em quando - ou nunca - por aqui.

Um comentário:

Bruna disse...

Acho que faz um boooom tempinho que vc postou esse texto (na verdade mais de um ano). O incrível é que eu estava fazendo uma pesquisa para uma dissertação sobre a profissão do arquiteto começando no medievo, passando pelo gótico e terminando no renascimento, e olha aonde o google me trouxe?! certo, ao seu blog.
Esse post me chamou atenção pelo título, até pq, acho que é uma das frases que eu mais falei nesse último no. E ele acabou de responder a pergunta que estava na minha cabeça... O que eu estou fazendo?!
Sou estudante de arquitetura, comecei no primeiro semestre de 2008, e como você caí aqui de pára-quedas nesse ccurso(até porque,sempre quis fazer medicina).
Certas coisas (como colegas que pareciam fazer aquilo desde que nasceram) me incomodavam, e ainda me incomodam. E quase sempre me pego pensando se eu realmente tenho o dom pra coisa... Mas concordo com você! Alguns tem maior facilidade, outros tem maiores dificuldades(eu com certeza me encaixo no segundo grupo), porém não quer dizer que você não possa seguir aquilo que gosta, ou que te dá prazer.
Você me trouxe uma última esperança antes de desistir de fazer essa trabalho louco (que eu estou hà horas sentada na frente desse computador e não sai nem a primeira linha) e ir pra praia. Mas a praia pode esperar...